De volta às trincheiras

Aquela noite no habibs foi muito especial e inesquecível, eu vi o quão amava e era amada por minha família, e o quanto eles estavam ao meu lado. Eu precisava muito daquilo, e eu mal sabia que não os veria tão cedo de novo.
Entrar naquele avião e voltar para SP me causava a sensação de estar indo para a guerra, e de  certa forma estava, tinha comigo a certeza de que teria que lutar, só não sabia se iria conseguir vencer. Eu achava que dessa vez tudo seria mais fácil já que minha mãe estava ao meu lado, mas SQN.
Chegamos no hospital cedo, como de costume, e depois de todo aquele ritual que já contei para vocês, eu sentei na poltrona para iniciar a minha segunda sessão de quimio. Roberta não estava, mas não me preocupei, porque eu sabia que qualquer alteração de exame era o suficiente para adiar a sessão.
Dessa vez seria a vez de tomar MTX (metotrexato), é uma quimio mais chatinha que precisa de certos cuidados, como não tomar sol porque podia manchar a pele, e também não comer ou tomar nada ácido, como suco de limão por exemplo, porque aumentava as chances de dar feridinhas na boca. Mas, não tinha para onde correr né, a enfermeira achou uma veia, o que foi uma tarefa muito difícil para a segunda sessão, vimos que a primeira foi o suficiente para enfraquecer as veias e fazer com que elas desaparecessem quando eu mais precisava delas. Malditas!

kkkkk, brincadeirinha.

Eu acho que contei para vocês que estava no final do segundo ano do ensino médio quando descobrimos tudo, então ainda faltava o terceiro para eu terminar mas eu não sabia como seria, e só sabia que a chance de eu ir pra escola fazendo o tratamento era praticamente nula. E foi ai que a assistente social do hospital me disse que o Graacc tinha um programa de escola móvel, onde professores davam aula para os pacientes dentro do hospital mesmo, na sala de espera durante as consultas, na quimioteca, e até mesmo na internação. Bastava eu dizer qual era a minha escola, e eles entravam em contato, para que a mesma mandasse o conteúdo e as provas, e depois a escola móvel mandava de volta para eles. Quando entraram em contato com o COC pediram para que minha mãe ligasse para eles, e quando ela ligou, eles disseram que estavam me dando uma bolsa integral para concluir o terceiro ano. E essa foi a primeira boa notícia que recebemos desde que tudo aquilo havia começado. Eu agradeci na época, mas vou aproveitar para agradecer de novo aqui, então obrigada COC Maceió, obrigada Romero e Jeine, por todo carinho, compaixão e bondade que tiveram comigo.
Enfim, eu contei tudo isso para dizer que a quimio já estava rolando, quando vi o Marcelo, professor de física (a matéria que eu mais odeio, mas era o professor que eu mais gostava) chegando. Já tínhamos nos conhecido na primeira sessão, e eu gostei muito dele. Marcelo era alto, magro, com barba e cabelão cumprido preso em um rabo de cavalo. Ele estava mais para metaleiro do que para professor, talvez fosse os dois, não sei, só sei que era um ótimo professor, e como brincavamos o tempo todo, um zoava o outro, a física acabou sendo mais tolerável e divertida para mim, mas mesmo assim eu não deixava ele perceber que tinha conseguido fazer eu gostar da matéria, ele aparecia e eu inventava de um tudo para não ter aula, isso quando não fingia que estava dormindo, mas ele, petulante como era, me acordava e sentava ao meu lado pra dar aula mesmo assim, e naquele dia não foi diferente.
Lembro como se fosse hoje, eu estava sentada na poltrona do canto, ao lado da janela, Marcelo sentou em um banquinho no meio, entre mim e a janela. O remédio de enjoo já tinha acabado, e a quimio começado e entre uma brincadeira e outra, Marcelo começou a aula. Ele ia explicando a matéria, de cabeça baixa e escrevendo umas coisas no caderno, e eu fingia que estava entendendo tudo. MENTIRA! Eu entendia sim, hahaha.
E ai, meus caros amigos, eu comecei a sentir coisas estranhas, as palmas das minhas mãos começaram a coçar muito, falei pro Marcelo, e o cretino me disse “Ahh, é sinal que você vai ficar rica, ter muito dinheiro, não se preocupe, você pode me dar um pouquinho” rimos e continuamos. Depois começou a coçar a barriga, as coxas e eu só queria um pedaço daquelas esponjas de banho sabe, pra me ajudar a acabar com aquela coceira. Marcelo devia estar achando que era mais uma das minhas desculpas para me livrar da aula e não deu a mínima pra mim, nem levantava a cabeça mais pra olhar pra minha cara. Ai eu coloquei a mão em cima do caderno e falei: “Marcelo, é sério, esta coçando muito”. Ele levantou a cabeça na mesma hora e quando olhou pra mim não conseguiu disfarçar a cara de “PQP o que aconteceu com essa menina”, ele nem falou nada, levantou e foi correndo chamar a enfermeira. E veio uma, duas, três..  quando me dei conta estava o andar inteiro ao meu redor. Chamaram a Dra. Carla, que apareceu tão rápido que fiquei realmente assustada. Comecei a ter falta de ar, sentia meus lábios enormes, apareceu um monte de vergão no meu corpo, e meu rosto parecia estar pegando fogo. Uma voluntária tinha levado minha mãe para fazer massagem no andar de cima, era uma coisa que tinha para as mães uma vez por semana, e ela acabou voltando bem nessa hora, o que não me ajudou muito, porque quando ela me viu a cara dela me mostrou um pavor tão grande que eu pensei “É AGORA EM, DAQUI EU NÃO PASSO”.
Eu tive uma reação alérgica gravíssima a quimioterapia, e o hospital inteiro quis ver porque fazia mais de 9 anos que alguém tinha tido uma reação daquelas.
Essa quimioterapia era essencial para o tipo de tumor que eu tinha, e por isso a Dr. Carla não queria abrir mão. Então mandou me darem uma injeção de adrenalina e um forte antialérgico, para que pudessem tentar continuar com a quimio de novo. Mas mesmo assim não adiantou, a alergia continuou, e não pude mais continuar com essa quimio, teríamos que encontrar outra solução.
Uma semana depois, fui para a consulta e a Dra. Carla esta com outro médico na sala, os dois queriam me dizer que eu ia ter um descanso maior que 21 dias para que desse tempo o suficiente para a MTX sair totalmente do meu organismo, para eu não correr riscos de intoxicação quando fosse começar a terceira sessão. Depois Dr. Carlos terminou a consulta me dizendo: “Olha Laíri, no futebol, quando acontece algo com o time titular, eles colocam o time reserva em campo. No seu caso, a MTX era o nosso time titular, agora teremos que encontrar o reserva”.
E eu fiquei como ?
Tranquila pow. SQN!

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