Minha primeira perda

Faltavam três dias para a minha terceira sessão de quimioterapia e acordei com febre. Os médicos já haviam nos orientado que caso minha temperatura passasse de 37.7º eu deveria ir para o hospital, e assim fizemos. Lembro que estávamos na estrada, minha mãe dirigindo depressa, como se estivesse com uma bomba prestes a explodir ao lado dela, e começou a tocar “Fuckin’Perfect – Pink” na rádio, e como eu já sabia o que queria dizer aquela música comecei a chorar, porque por mais que ela diga que nunca devemos deixar que nos façam sentir menos do que perfeitas, naquele momento eu sentia completamente o oposto daquilo, me sentia frágil, quebrada e totalmente imperfeita. Então chorei pela primeira vez desde que havia vindo pra SP, já havia chorado por sentir dor física, dor que o tumor causava no meu joelho, mas ali no carro, pela primeira vez eu chorei por uma profunda dor na alma.

Chegamos no hospital, fiz todos os exames e vimos que eu estava com uma infecção alta, só não sabíamos a causa. Fui internada imediatamente, e nesse exato momento um dos piores momentos da minha vida tinha começado.
No dia seguinte começou a aparecer feridas na minha boca, e a febre ficou cada vez mais alta, com cerca de 4 ou 5 picos por dia, e a cada pico meu corpo sentia que havia sido atropelado por um trator. Meu apetite caiu drasticamente, por causa das feridas na boca eu sentia muita dor na hora de comer. Já fazia quase uma semana que eu estava internada e ainda não tinham descoberto o que eu tinha, a febre não cessava, e cada dia surgiam mais feridas. Eu parei de falar, de comer, e nem a saliva eu conseguia engolir mais, ficava com um paninho do lado da minha boca para ela escorrer.

Minha irmã mais velha, Daniele, estava em Maceió cuidando dos meus outros irmãos com meu padrasto, mas minha mãe pediu para ela voltar e ajudar a cuidar de mim já que a minha previsão de alta estava mais distante que o Acre. Minha mãe tinha atingido o primeiro pico do limite dela, e àquela altura não estava me fazendo bem vê-la sofrer tanto, então a chegada da Dani me deu um pequeno ânimo, a criatura me irritava tanto que me fazia conseguir até falar as vezes.. para brigar com ela, claro!
Dani aparentava ser a mais forte da família com relação a tudo aquilo, mas eu sabia que por dentro ela estava tão o mais quebrada do que eu. Minha irmã nunca foi boa em demonstrar o que sente, ela é do tipo que te vê chorando e não sabe o que fazer, mas eu sabia, sabia que o que ela mais precisava naquele momento era pegar no meu pé, brigar comigo para comer, sair um pouco da cama e andar, estudar, fazer qualquer coisa, desde que eu reagisse.

Faziam 8 dias que eu estava naquele lugar, e parecia que eu ficava cada dia mais doente. Já tinha feito todos os exames que existiam naquele hospital, até que uma enfermeira chegou no meu quarto e disse que tinha um novo exame a ser feito, eu apenas assenti com a cabeça, e fiquei esperando, quando de repente ela me mostrou um cotonete um pouco maior que o normal, estranhei porque eu já havia feito aquele exame, onde eles passam um cotonete dentro da boca da gente para coletar nossa saliva, mas pensei “Eles devem estar repetindo exames já que não descobriram nada até agora”, e abri a boca. A enfermeira ficou vermelha, e me disse: “Não Laíri, acho que você não esta entendendo, esse é outro exame, vou passar o cotonete em outro lugar, vira de ladinho pra mim e sobe a camisola”.

GENTE DO CÉU, se eu tivesse o poder da autocura uma vez na minha vida, eu teria evocado naquele momento. Mas não tinha como, então pensei: “MOÇA, VOCÊ QUE NÃO ESTA ENTENDENDO, EU NUNCA FUI TÃO HUMILHADAAAAAAA!” Me virei quietinha, fechei os olhos e só desejei nunca mais ver aquela enfermeira na face da terra. Pois é, a vida estava me testando, mas pelo menos meu desejo foi atendido, não a vi mais depois daquele momento constrangedor, porque fui transferida para Semi-UTI.

Cheguei na Semi-UTI e dormi, como eu tinha muita febre, tomava muito anti térmico e também morfina para a dor na boca, então dormia muito. Quando acordei minha mãe estava lendo um livro ao meu lado e eu disse que estava com fome, com vontade de comer aquela sopa de legumes batida sabem? Tipo papinha de bebê, e claro, como eu não comia a dias, a maravilhosa da minha mãe saiu desesperada em busca da sopa. De repente vi o marido da Roberta passando no corredor, lembram dela né ? Minha primeira parceira de quimio. Tentei chamá-lo, mas como não estava falando, não consegui.
Uma hora depois minha mãe voltou com um balde de sopa, lembro como se fosse hoje do cheiro delicioso que tomou conta do quarto, mas a primeira colherada desceu rasgando na minha garganta, só não doeu mais que a tristeza que senti por decepcioná-la e não conseguir comer depois de todo o trabalho que ela teve. Já ela ficou chateada apenas por eu não conseguir comer, tinha ficado muito animada com a ideia daquilo acontecer.
Contei a ela que tinha visto o marido da Roberta passando no corredor e pedi pra que ela fosse dar uma volta pelo andar e ver se o encontrava. Minha mãe voltou pálida e ao mesmo perturbada, tentou desconversar, me distrair, mas não conseguiu por muito tempo até  que finalmente me contou o que estava acontecendo, Roberta estava ali, praticamente no quarto ao lado, mas em uma situação bem pior que eu, completamente inconsciente e entubada.
Na manhã do dia seguinte fui até o quarto onde ela estava, o marido estava do lado de fora conversando com a mãe dela, e eu soube que aquilo não era bom. Quando entrei no quarto e a vi, não a reconheci, já não parecia a doce e meiga Roberta que eu tinha conhecido, a mulher que me animou tanto, que me fez sorrir no momento em que eu só queria gritar e chorar. Não era ela ali.
No dia seguinte de tarde eu tive minha primeira perda, Roberta se foi.
Talvez vocês pensem que eu não senti tanto porque não a conhecia muito bem, mas eu senti e muito aquela perda, porque além de sofrer com o fato de uma pessoa boa ter partido eu sofri com o fato de que com ela se foi toda a minha esperança de que um dia eu sairia bem daquele hospital de novo, e comigo só ficou a uma pergunta:

Será que vou ser a próxima ?

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