Todo excesso esconde uma falta

A morte da Roberta mexeu muito comigo, e na situação em que me encontrava não tinha como ser diferente. Estava internada há 12 dias, sem um diagnóstico e previsão de alta, então não sabia que expectativa criar para aquilo tudo que estava vivendo, eu esperava qualquer coisa acontecer, menos meu pai biológico, um completo estranho para mim, aparecer.

Fui criada pelo pai das minhas irmãs desde meus 2 anos de idade, e ele é e sempre vai ser a minha referência de pai, tive problemas com ele na minha infância porque acreditava que  era tratada com uma certa diferença por não ser filha dele de sangue, mas hoje em dia eu já nem sei se isso realmente existiu ou se era coisa da minha cabeça, porque vocês sabem, as vezes a gente acredita tão veementemente em algo que aquilo acaba se tornando uma verdade pra gente, mas no fundo talvez não seja real. E mesmo que esse problema tenha ou não existido ele foi meu pai, a minha lembrança de andar de mãos dadas voltando das reuniões de escola, a presença de uma figura paterna nas festinhas dos dias dos pais, de alguém segurando meu cabelo para vomitar quando ficava doente, ou me segurando no colo para tomar vacina, enfim, todas essas memórias são com ele.
Então quando o meu genitor apareceu eu não soube o que pensar e nem como reagir. Já ouvi dizer que o ser humano tem uma tendência a repelir o desconhecido, e foi exatamente isso que acabei fazendo. Não me entendam mal, mas essa é só a ponta do iceberg, quem sabe um dia eu decida mostrar o tamanho e profundeza dele para vocês. O que eu posso dizer é que foi um péssimo momento para ele aparecer, ele teve 16 anos para fazer isso poxa, e para mim, ele surgir justo naquele dia só significava uma coisa, ele queria limpar a consciência dele caso algo de pior acontecesse comigo, e eu não estava disposta a dar isso a ele, confesso.

Eu estava completamente dependente da minha mãe e das enfermeiras para tudo, como tomar banho, ir ao banheiro, comer, etc. E ele me aparece com uma troca de roupa dizendo que ficaria dois dias comigo para minha mãe poder descansar. E eu pensei:

WTF MEU QUERIDO, QUEM ÉS TU?

E claro que eu disse que não. Afinal, como eu ia tomar banho, trocar de roupa e ir ao banheiro com um homem que eu nunca tinha visto na vida. Não tinha como gente, e fora tudo isso, tinha aquela confusão de sentimentos que borbulhavam dentro de mim, eu estava tão brava com tudo aquilo, passei anos imaginando formas em que o encontraria, e em nenhuma delas foi daquele jeito. O que me dava mais raiva era que eu não conseguia nem falar, não podia brigar, gritar e perguntar: Porque não antes em lindo? Porque só agora, comigo com câncer nessa cama?

Ele saiu do meu quarto e voltou uma hora depois com um pijama e um tapa olhos de presente (porque me ouviu dizendo que não conseguia dormir com as luzes da UTI), como se aquilo fosse resolver alguma coisa e fosse anular todos os anos em que me senti rejeitada por ele, todos os anos que esperei ele bater no meu portão e cantar “Eu volteeeeei, agora pra ficar”, brincadeira. Só queria que ele aparecesse e dissesse que não importava minha mãe e o novo marido dela, mas que eu, a única filha dele importava muito e que ele não ficaria longe de mim. Mas nada disso aconteceu!
Pedi para que fosse embora. Ele me deu um abraço estranho e deixou a bolsa de roupa no sofá, depois disse que voltaria quando eu quisesse, que era só ligar. E no momento em que ele saiu pela porta, com muito custo me levantei, peguei a bolsa e joguei no lixo. Ele não precisou de mim naqueles 16 anos, então decidi que eu não precisaria dele naquele momento também.

Na manhã seguinte acordei mais doente do que já estava, comecei a vomitar sangue e as feridas na minha boca estavam muito piores, uma delas estava tão grande que chegaram a pensar que poderia ser outro tumor. Eu estava tomando três tipos de antibióticos importados, mas não adiantava, a febre não cessava, a infecção não baixava e a Dra. Carla não sabia ou não tinha mais o que fazer. Um pouco antes do almoço ela entrou no meu quarto e pediu para que minha mãe a acompanhasse. Algum tempo depois minha mãe apareceu aos prantos e correu para me abraçar, me grudou com tanta força que nessa hora eu achei que tinha algo muito sério estava acontecendo, mas depois que ela se acalmou e me disse que traria as minhas irmãs de Maceió para me ver, eu tive a certeza.

Naquele dia eu não soube, mas depois minha mãe me contou que naquela manhã tinha praticamente assinado meu atestado de óbito. Um documento que dizia que minha mãe estava ciente de que o hospital tinha feito todo o possível para me curar, e que não tinham mais nada a ser feito, a infecção continuava alta, e a um passo de passar para o sangue, caso isso acontecesse eu entraria em sepse e poderia morrer. Então a equipe médica resolveu suspender os antibióticos, já que aparentemente a bactéria estava cada vez mais resistente a eles, e esperar.

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