Uma, das minhas sete vidas

Depois que a Dra. Carla suspendeu os antibióticos e disse que deveríamos esperar para ver como meu corpo responderia, eu só imaginei uma voz emanando do meu corpo como se estivesse gritando:
– CAIXÃO, A MINHA RESPOSTA É ESSA !

Naquele mesmo dia, no fim da tarde, eu estava cochilando, e minha mãe estava com a cabeça apoiada na minha maca. Ela estava muito cansada, mas não dormia, acho que o medo de eu morrer com ela dormindo a mantinha em alerta. Acordei com o celular da minha mãe tocando, isso era por volta de 19h, e do outro lado da linha estava minha tia Ângela, dizendo que tinha se perdido e que não sabia como chegar ao hospital. Minha mãe ficou surpresa porque não tinha combinado nada com ela, e também porque não esperava uma visita naquele dia. Ela explicou o caminho para minha tia, desligou o telefone e me disse, que ela e meu tio Elias estavam chegando.
Meu tio é pastor, e a única coisa que eu pensei depois de saber que ele estava chegando era que minha mãe estava fingindo que não sabia de nada, mas que na verdade ela mesma tinha o chamado para ir lá me ver, para fazer igual padre faz quando alguém está morrendo sabe? Dar extrema unção, sei lá!

Quando eles chegaram o rosto da minha mãe se iluminou como se estivesse vendo uma luz no fim do túnel bem na testa do meu tio, ou talvez só estava feliz por ver algum rosto amigo. Minha tia me abraçou forte e seus olhos se encheram de lágrimas, eu imagino o que passava na cabeça das pessoas que foram me ver naqueles dias, eu estava horrível, com olheiras enormes, pálida e bem mais magra do que estivera há dias atrás. Como de costume minha mãe dava o meu histórico completo para todos que chegavam pra me visitar, contava os últimos acontecimentos, decisões médicas e procedimentos, e com meus tios não foi diferente.

A hora passou e chegou o momento mais temido, a hora da extrema unção.. HAHAHA
Me lembro nitidamente, meu tio se levantou, colocou as mãos juntas na altura do peito e perguntou se podia fazer uma oração por mim, e apesar de estar apavorada eu disse que sim. Ele ficou no pé da cama, minha mãe e minha tia, ficaram do meu lado, todos fecharam os olhos e meu tio começou a orar.
Obviamente não me lembro das palavras proferidas por ele naquela oração, mas me lembro de tudo que aconteceu e tudo que senti durante ela. No começo eu apenas fechei os olhos, confesso que não estava totalmente entregue, assim como já confessei também que o período em que estive doente, ou pelo menos em boa parte dele eu estive revoltada com Deus, e que minha mãe é quem tinha fé por nós duas. Mas quando Deus quer, e quando ele tem um plano maior na nossa vida, Ele faz independente da gente, porque como diz em Mateus 18.20: “Porque, onde dois ou três estiverem reunidos no meu nome, ali estarei no meio deles.” E Ele realmente esteve ali, naquele dia.
Eu estava sentada na cama, de olhos fechados, e de repente meu peito começou a formigar, era como se estivesse coçando muito por dentro, logo depois comecei a tossir, uma tosse atrás da outra, como se algo estivesse querendo sair, e saiu, comecei a tossir pequenos jatos de sangue. Meus batimentos começaram a aumentar muito rápido, até que uma enfermeira veio até mim e ficou parada ao meu lado, e embora tudo isso estivesse acontecendo meu tio não parava de orar, lembro que abri os olhos para ver o painel dos batimentos e meu coração estava oscilando entre 170 e 180 batimentos por minuto, a enfermeira deve ter ficado preocupada e perguntou no meu ouvido se eu queria que ela o fizesse parar, mas entre uma tosse e outra, e meu coração parecendo que ia explodir no meu peito eu disse que não. Ela assentiu, e permaneceu ao meu lado. Deus estava ali, e todos naquele quarto sentiram isso. Entreguei o balde onde estava tossindo para minha mãe, limpei a boca e vi no painel que meus batimentos estavam voltando ao normal, eu respirava fundo para me acalmar, minha mãe apertava forte a minha mão e chorava com a outra mão apontada para o alto.
Meu tio começou a diminuir seu tom de voz, e finalizou a oração. Quando abriu os olhos me disse que Deus estava me curando naquele momento e que aquilo tudo não seria para a minha morte, mas sim para a honra e glória do nome de dEle. E sem entender nada daquilo tudo que tinha acabado de acontecer, eu apenas disse amém.

Meus tios foram embora logo depois,  minha mãe desceu para acompanha-los até a saída do hospital e quando ela voltou eu já tinha adormecido. Lembro que minhas noites de sono eram péssimas, e eu não dormia bem durante a noite, sentia muita dor e muito incomodo para respirar, mas naquela noite eu dormi. Acordava só com minha mãe me chamando, perguntando se eu estava bem, pois ela já tinha se acostumado comigo acordando várias vezes, e como naquela noite eu dormi, quem não dormiu nada foi ela, acredito que com um medo federal de eu ter dormido para não acordar nunca mais, tadinha. kkkk

No dia seguinte acordei sem febre, coisa que não aconteceu em todos aqueles dias anteriores. Quando a Dra. Carla passou na visita aparentou ficar feliz (ou aliviada, não sei o certo), disse que se eu não tivesse febre o dia todo, teria alta no dia seguinte. Lembro que em vez de ficar contente eu fiquei muito brava com ela, e depois que ela saiu falei pra minha mãe:
– Como assim ? Ontem ela veio, praticamente dizendo que eu ia morrer e suspendeu todos os remédios, hoje ela vem e diz que se eu ficar sem febre vou pra casa ? Ela quer mesmo que eu morra, mas em casa, pra ela não se sentir culpada.
HAHAHA.. Gente, eu era terrível, eu sei!
Para a minha total surpresa e desespero, de fato eu não tive mais febre, ela se foi como mágica. Então na manhã seguinte eu estava indo pra casa, bem puta com a Dra. Carla, mas estava. As feridas demoraram mais ou menos uma semana para sararem totalmente, e tudo ficou bem. Mas, até hoje não sabemos de fato o que eu tive, só que Deus é maravilhoso e que foi Ele quem me tirou daquela Semi-UTI.

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