Uma em um milhão

Eu estava me recuperando de um back, mas já avistava nitidamente o próximo que estava me aguardando bem ali na frente. Faltava a última sessão de quimioterapia antes da minha cirurgia para remover o tumor, mas por causa da intercorrência anterior, atrasou um pouco. Minha imunidade e plaquetas estavam muito baixas ainda, e a equipe médica não queria arriscar. Mas chegou o dia de iniciar a quarta sessão, e fora o esperado, que era composto por fraqueza, enjoos, vômitos, e falta de apetite, tudo correu dentro dos conformes, e em 20 dias eu estava pronta de novo, agora para a minha primeira cirurgia.

Coincidência ou não, a cirurgia foi programada para o dia 30 de maio, um dia após o meu aniversário, e sim, eu passei o dia em que completei 17 anos internada, pelo menos era domingo (eu odeio domingo), e não se tem muito o que fazer nesse dia. Minha mãe e minhas tias fizeram uma festa pra mim no sábado, e claro, estava todo mundo la, porque vai que eu partisse dessa pra melhor na cirurgia né, tinha que me despedir da galera de uma maneira marcante, no meu aniversário !
Seria engraçado, fala sério… hahaha

Domingo de manhã eu, Dani e minha mãe chegamos no hospital para a internação, e claro, minha mãe estava mais desesperada que o Lula no julgamento dele. Já eu, estava sim com medo, mas confesso que não tinha muita noção de tudo que poderia ou não acontecer, como eu teria hoje, lá atrás eu era só uma menina de 17 anos com medo de morrer e deixar minhas coisas para minhas irmãs. Brincadeira!
A enfermeira me preparou, coletou exames de sangue e se certificou que a partir das 22h daquela noite eu não comesse e nem bebesse mais nada, o que para mim foi a pior parte de todas, mentira!
Praticamente não dormi aquela noite, mas o fato de saber que eu apagaria na cirurgia me consolou um pouco, porque às 5h30 da matina a enfermeira me tirou da cama para tomar banho, achei um absurdo.
Lembro que no chuveiro eu lavei com tanto gosto e medo a minha perna com aquele sabonete líquido especial deles, porque eu não queria ter uma infecção de jeito nenhum, e perder a perna. Mal sabia eu que não se obtinha infecção apenas por “sujeira”, mas por mil outras razões. E outra, não sabia também que não seria o fato de gastar o tubo inteiro de sabonete na perna que me impediria de perdê-la.
ALERTA SPOILER !

As enfermeiras me levaram para o centro cirúrgico por volta de 07:00h e naquela maca só estava o meu corpo, porque minha alma tinha ficado lá em baixo de mãos dadas com o medo em forma de gente, a da minha mãe então, nem se fala, ela tinha ficado abraçada.
Logo veio o anestesista me fazer perguntas e ali eu comecei a cair na real, eu ia mesmo fazer aquilo, e não tinha como fugir. Mas hoje eu penso, porque eu queria tanto fugir daquilo que ia me salvar ? Afinal, ficar com aquele tumor iria me matar. Não entendo como pode a gente querer fugir o tempo todo do que é para o nosso bem, para a nossa sobrevivência, fugir do que vai melhorar ou salvar a nossa vida. Porque a gente não tenta nem um pouco fugir com a mesma vontade do que nos faz mal?
Dos relacionamentos abusivos, dos casamentos falidos, dos amigos que na verdade são verdadeiros vampiros emocionais que só querem sugar o que tem de bom na gente. Porque não fugir do esteriótipo de procrastinador,  que deixa tudo que realmente importa para última hora, como por exemplo assumir um cuidado com seu corpo e saúde, ou largar o celular e olhar um pouco mais para o seu casamento, seus filhos, um amigo que esta precisando da sua ajuda, ou simplesmente olhar mais para você mesmo.
Eu realmente não entendo como pode tanta gente preferir ficar com o tumor.

Entrei no centro cirúrgico e o Dr. Dan veio falar comigo, disse para eu ficar tranquila, que a cirurgia duraria por volta de 4 horas e que tudo ficaria bem. O anestesista pediu para que eu ficasse sentada pra ele poder aplicar a anestesia raqui, o que não foi muito fácil, porque não é nada gostoso sentir uma agulha enorme entrando nas suas costas, mas superei isso esse ano já. Depois me deitei e ele colocou aquela máscara com anestesia no meu rosto, o que deveria ser algo parecido com “Boa noite, Cinderela”, porque eu dormi igual uma princesa. kkkkkkkkkk

Acordei no quarto da UTI com o Dr. Dan apertando meu pé, e a primeira coisa que eu pensei foi:
– Graças a DEUS, não perdi minha perna, obrigada Pai, estou te devendo uma (contabilizando esses 8 anos de tratamento, hoje eu devo umas 9, mas é isso ai, devo não nego, pago quando o Senhor quiser).
Mas, voltando, o Dr. Dan não faz o estilo que vai no quarto do paciente e fica esperando ele acordar, então eu achei que algo tinha dado errado, e quando ele abriu a boca para falar como tinha sido a cirurgia, eu tive certeza. A cirurgia que era para durar 4h, na verdade durou 7h. Na hora em que ele foi retirar o tumor, viu que ele estava grudado na veia poplítea, uma das, se não a principal veia da perna, e que para quem entende um pouquinho de anatomia sabe que é muito sério, mas não tinha outro jeito, então ele retirou mesmo assim, o que causou o rompimento da veia. Na hora que minha mãe foi avisada, ela quase teve um infarto, e as chances dela realmente ter só aumentaram depois que a enfermeira disse que eles mandaram chamar um cirurgião vascular, porque só ele poderiam “costurar” de volta, e em último caso teriam que amputar, porque sem circulação, não teria como manter a perna.
Mas, não criemos pânico, pelo menos não agora, porque ele conseguiu.
Então eu termino esse texto compartilhando com vocês uma pequena tese que venho defendendo ao longo desses 8 anos e vocês irão poder dizer se estou certa ou não quando eu acabar de contar toda a minha história, fora a alergia gravíssima, que não viam um caso desse no hospital há 8 anos, que tive a principal quimioterapia e que vocês já sabem, agora essa da cirurgia. Então ai vai a minha tese:
– Eu sempre sou aquela pessoa do “um em um milhão”.

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